Artigo do neurologista Dr. Lucas Vergara Cury analisa pesquisas recentes sobre os efeitos da substância na neuroplasticidade e no tratamento de sintomas associados à lesão cerebral
A lesão cerebral traumática (LCT) representa um dos maiores desafios da neurologia contemporânea. Estima-se que cerca de 69 milhões de pessoas no mundo sofram algum tipo de lesão cerebral traumática todos os anos, muitas delas convivendo com consequências físicas, cognitivas e emocionais de longo prazo.
Um artigo assinado pelo neurologista Lucas Vergara Cury chama atenção para um campo emergente da ciência: o potencial terapêutico da psilocibina, substância psicodélica presente em determinados fungos, na recuperação neurológica de pacientes com esse tipo de lesão.
Segundo o médico, o processo de lesão cerebral vai muito além do impacto inicial. A chamada lesão primária pode desencadear uma cascata de processos inflamatórios e neurodegenerativos, incluindo morte neuronal, danos neurovasculares e perda de substância branca no cérebro.
“Após o trauma inicial, ocorre uma resposta imune complexa. Os macrófagos inicialmente ajudam a remover estruturas danificadas, mas, com o tempo, podem contribuir para a inflamação persistente e para a progressão da lesão neuronal”, explica o neurologista.
Efeitos anti-inflamatórios e estímulo à neuroplasticidade
De acordo com o artigo, estudos recentes sugerem que a psilocibina pode atuar em diferentes mecanismos biológicos relevantes para a recuperação cerebral.
Entre eles está a redução de marcadores inflamatórios, como TNF-alfa, interferon-gama e interleucinas associadas a processos inflamatórios no sistema nervoso central. Essa modulação inflamatória pode estar relacionada também a melhorias observadas no humor e na sociabilidade em pacientes.
Pesquisas experimentais em modelos animais indicam ainda que a substância pode estimular a chamada neuroplasticidade, capacidade do cérebro de reorganizar suas conexões neuronais.
Em estudos com camundongos, por exemplo, observou-se aumento de cerca de 10% no tamanho e na densidade dos espinhos dendríticos, estruturas essenciais para a comunicação entre neurônios, apenas 24 horas após uma dose única da substância. Esse efeito chegou a persistir por até um mês.
Outro experimento, realizado com suínos, identificou aumento da densidade da proteína sináptica SV2A no hipocampo, região cerebral associada à memória e ao aprendizado, sugerindo maior formação de conexões neuronais.
Impactos no humor após traumas cerebrais
Além das alterações neurológicas, pacientes com lesão cerebral frequentemente desenvolvem transtornos psiquiátricos. Estudos indicam que cerca de 60% das vítimas de LCT apresentam quadros de depressão ou alterações de humor nos meses seguintes ao trauma.
Nesse contexto, pesquisas clínicas com psilocibina têm mostrado resultados promissores. Em um ensaio clínico de fase 2, uma dose única de 25 mg da substância foi associada a uma redução significativa de sintomas depressivos, medidos por escalas clínicas padronizadas.
Segundo o neurologista, os efeitos antidepressivos parecem estar relacionados a mudanças na atividade de áreas específicas do cérebro, como o córtex pré-frontal medial e a amígdala, regiões envolvidas na regulação emocional e na resposta ao estresse.
Esses mecanismos também ajudam a explicar o interesse científico no uso da substância em transtornos como o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Segurança e efeitos adversos
Embora os resultados sejam considerados promissores, o uso terapêutico da psilocibina ainda está em fase de investigação científica.
Entre os efeitos adversos mais relatados estão dor de cabeça, náusea, ansiedade, tontura e aumento da pressão arterial. De acordo com os pesquisadores, esses efeitos podem estar relacionados à ativação de receptores serotoninérgicos e a alterações temporárias na sinalização neural.
Um campo científico em expansão
Para o neurologista, o crescente número de estudos aponta para uma nova fronteira da medicina neurológica.
“A ação multimodal da psilocibina, envolvendo modulação inflamatória, estímulo à neuroplasticidade e efeitos sobre circuitos emocionais, ajuda a explicar o interesse científico crescente nos psicodélicos como potenciais ferramentas terapêuticas”, afirma.
O artigo de Lucas Vergara Cury se baseia na revisão científica “The Potential Role of Psilocybin in Traumatic Brain Injury Recovery: A Narrative Review”, publicada em 2025 na revista Brain Sciences, assinada pelos pesquisadores Charles Palmer, Ally T. Ferber e Brian D. Greenwald.




